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segunda-feira, 23 de junho de 2008

COMERCIAL BANIDO MTV

Proibir é imbecilizar.
Imbecilizar é destruir.

A educação é tudo, não importa o que pensem os "barões" do planeta. Por isso, vamos espalhando, por favor. Educar é construir.

Não à imbecilização.

A seguir: comercial banido da MTV.
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MAS NEM TUDO PODE SER ESCONDIDO.

AMEN!

Como especuladores estão causando a alta do custo de vida

COMO ESPECULADORES DESTROEM A SOCIEDADE

É, deu no DER SPIEGEL....

Isso todo mundo sabia, mas a riqueza de detalhes é adorável...
Quanto poder possuem esses especuladores! São os verdadeiros donos do mundo! E o tratam como se vê: pra poucos tudo, pro resto, NADA!

A seguir: Como especuladores estão causando a alta do custo de vida (leia-se: aumentando a pobreza, a fome, os conflitos, as diferenças, digamos assim, como eles estão FODENDO toda a sociedade do planeta).

Sim, é comprida a matéria, mas todos temos a obrigação de lê-la. Coragem!
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Como especuladores estão causando a alta do custo de vida - parte 1
Após investir em ações de alta tecnologia e financiamento de imóveis por anos, legiões de especuladores agora descobriram commodities como petróleo e gás, trigo e arroz. Seus bilhões estão pressionando os preços a níveis estratosféricos -com sérias conseqüências para a qualidade de vida das pessoas
Tradução: George El Khouri Andolfato

Após investir em ações de alta tecnologia e financiamento de imóveis por anos, legiões de especuladores agora descobriram commodities como petróleo e gás, trigo e arroz. Seus bilhões estão pressionando os preços a níveis estratosféricos -com sérias conseqüências para a qualidade de vida das pessoas

Markus Dettmer, Frank Hornig, Armin Mahler, Christoph Pauly, Wolfgang Reuter, Janko Tietz

Yoshikazu Tsuno/AFP - 9.jun.2008

Daniel Jaeggi está sentado à uma mesa de conferência em um prédio de escritórios na Place du Molard, em Genebra, a apenas poucos passos de distância do lago. É 13h45 de uma sexta-feira recente, e o preço de um barril de petróleo do tipo Brent é de US$ 129,50.

Jaeggi, um suíço de 47 anos, é um trader de petróleo. Ele e seu sócio, Marco Dunand, são donos de uma empresa chamada Mercuria. Ela é uma das 10 maiores empresas de trading do mundo. Em seus escritórios em Genebra, aproximadamente 110 funcionários analisam os mercados, lidam com contratos e monitoram as rotas dos petroleiros. No ano passado, a Mercuria negociou produtos de petróleo em um valor total de quase US$ 30 bilhões. Entre eles estavam milhões de barris de petróleo destinados à China.

"Por décadas, o petróleo era barato demais. Até 1999, um barril custava menos de US$ 10", diz Jaeggi. É claro, economias em ascensão como a da China, Índia, Rússia e Brasil estimularam a demanda, elevando o preço do petróleo. Mas o que realmente mudou o mercado foram os grandes fundos de pensão e investimento.

Em busca de retornos seguros e de longo prazo, grandes investidores voltaram sua atenção para os índices de commodities, investimentos que prometiam retornos substancialmente maiores do que o investimento no mercado de ações. Quanto mais os fundos investiam, mais os preços subiam, especialmente devido ao mercado para contratos futuros especulativos de commodities ser muito pequeno. Mesmo pequenas mudanças nos portfólios de grandes fundos mútuos podem provocar rapidamente a alta do preço do petróleo.

Às 15h15, o preço de um barril de petróleo do tipo Brent está a US$ 131. Ao longo do dia, os traders da Mercuria em Genebra negociaram até 4 milhões de barris de petróleo "real" e cerca de 10 vezes mais em chamados swaps -em outras palavras, petróleo que existe apenas em papel- para diminuir o risco.

"O preço do petróleo subiu cerca de US$ 10 nos últimos dois dias", diz Jaeggi, acrescentando que no passado seriam necessários anos para a ocorrência do mesmo aumento de preço no mercado. Mais tarde naquela sexta-feira, o petróleo cru americano atingiu o preço recorde de mais de US$ 139, mais de US$ 11, o maior aumento em um único dia.


Ernst Tanner está fazendo a mesma pergunta a si mesmo, mas ele está pensando em cacau, não em petróleo. Tanner é presidente-executivo da fabricante suíça de chocolates finos Lindt & Sprüngli. Ele teve que ficar atento devido ao aumento de 40% no preço dos grãos de cacau desde o início de 2007, apesar da oferta abundante. "Não tem mais nada a ver com oferta e demanda", diz Tanner.

Os aumentos de preço que afetaram o petróleo e o cacau se aplicam a quase todas as outras commodities. Uma saca de arroz agora custa quase três vezes mais do que em janeiro, o trigo, milho e soja já atingiram preços recordes neste ano e ouro está recentemente em uma montanha-russa desenfreada.

Dificilmente alguém realmente precisaria de ouro, mas o petróleo é o lubrificante de nossa economia. À medida que vai se tornando mais caro, o motor da economia começa a parar. E o trigo e o arroz, como alimentos básicos, são realmente essenciais à vida humana. À medida que se tornam mais e mais caros, os pobres são forçados a comer menos ou, em alguns casos, a passar fome.

Centenas de milhões de consumidores em todo o mundo agora se perguntam o que acontecerá. Por semanas, os altos preços dos alimentos levaram a inquietação em muitos países. Manifestantes na Indonésia e na Tailândia, por exemplo, exigiram "mais dinheiro para operários e agricultores". Em abril, os cidadãos no Haiti derrubaram o primeiro-ministro do cargo por causa do preço dos alimentos, e a população de Burkina Fasso paralisou o país inteiro por dias com uma greve geral. Na Somália, onde a situação é particularmente extrema, soldados dispararam contra uma multidão de dezenas de milhares de somalis furiosos, em um esforço para colocar a situação sob controle. Os preços do arroz na Somália dobraram em um espaço de poucas semanas.

O preço da farinha de milho, um ingrediente chave de tortilhas e conseqüentemente um item básico no México, também teve alta estratosférica. Em um esforço para aliviar a situação, o presidente do México, Felipe Calderón, ordenou que os 26 milhões de cidadãos mais pobres do país recebessem imediatamente um auxílio mensal de cerca de US$ 11.

Muitos países europeus, incluindo a França, Itália, Reino Unido e Espanha, viram protestos nas últimas semanas por parte daqueles mais afetados pelos altos preços da gasolina. Enquanto os preços da gasolina consomem uma fatia cada vez maior da suas rendas, agricultores, pescadores, taxistas e caminhoneiros estão cada vez mais preocupados em conseguir arcar com suas despesas.

Ao mesmo tempo, o custo de vida continua subindo. Na sexta-feira (6 de junho), o banco central alemão, o Bundesbank, aumentou drasticamente seu prognóstico de inflação para o próximo ano, de 2,3% para 3%.

Os custos da energia estão provando ser o maior fardo para os cidadãos comuns. Um trabalhador que viaja entre as cidades de Hamburgo e Lübeck, no norte da Alemanha, por exemplo, pode esperar gastar várias centenas de euros a mais em gasolina neste ano. A despesa média mensal em energia de um lar típico na Alemanha aumentou em 100 euros desde 2004.

Mas isto é apenas o começo. Já está claro que o gás natural se tornará significativamente mais caro ao longo do ano, porque na Alemanha o preço do gás está casado ao preço do petróleo. Os consumidores já devem se preparar -e possivelmente poupar dinheiro- para os aumentos elevados nos custos de aquecimento no final deste ano.

O custo dos alimentos também está em alta. Massas estão 26% mais caras do que há um ano, enquanto o preço de alguns derivados de leite aumentou 47%.

E o que acontece quando os preços da energia são plenamente repassados para as tarifas aéreas? A resposta é óbvia: mais e mais alemães pensarão duas vezes sobre poderem arcar com as despesas de suas férias habituais.

O padrão de vida de muitas pessoas já está em risco, e talvez a prosperidade da nação como um todo em breve possa ser ameaçada.

A pergunta é se os aumentos de preços são inevitáveis, porque a demanda é maior do que a oferta, ou se outras forças, menos óbvias, estão em ação: especuladores que estão tirando proveito da crescente escassez de recursos para ganhar muito dinheiro rapidamente.

Isto envolve mais do que apenas economia. Também é uma questão ética e altamente moral. Muito depende da resposta, incluindo a credibilidade de nosso sistema econômico.

Talvez este seja o motivo para haver tantas pessoas tentando desarmar a questão e acalmar os ânimos, aquelas que admitem que os especuladores estão em ação nos mercados de commodities, mas que também insistem que eles têm pouca influência sobre os preços. E se eles têm uma influência, dizem essas pessoas, só pode ser uma coisa boa, porque forçará a humanidade a se preparar mais rapidamente para o inevitável: a crescente escassez de recursos.

"Não se trata de procurar quem culpar", disse recentemente Hank Paulson, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos. "Se trata de oferta e demanda". Segundo Paulson, "os especuladores tiveram pouco impacto".

Mas as pessoas que são afetadas pela alta dos preços das commodities vêem de forma diferente. "A enxurrada de dinheiro de Wall Street e dos fundos hedge está pressionando a alta dos preços -e os efeitos são potencialmente destrutivos", diz Tom Buis, presidente da União Nacional dos Agricultores dos Estados Unidos.

À medida que os preços se afastam cada vez mais da realidade, outro risco começa a surgir: o desenvolvimento de outra bolha semelhante à alimentada pelos preços inflacionados das ações na chamada Nova Economia. Um estouro seria inevitável.

Ela seria uma boa notícia para os motoristas na Alemanha e pessoas que passam fome na África. Mas poderia lançar os mercados financeiros novamente em turbulência, causando problemas para os fundos hedge e talvez para alguns poucos bancos.

Independentes dos preços subirem ou descerem, a especulação resulta em exageros absurdos, com conseqüências reais para a economia.

Novamente, são os excessos dos mercados financeiros modernos que estão causando convulsões na economia mundial. De fato, o presidente da Alemanha, Horst Köhler, pode estar certo ao ter dito recentemente, em uma entrevista para a revista alemã "Stern", que os mercados financeiros se transformaram em um "monstro" que precisa ser domado.

"O setor financeiro se desligou da economia real", diz Heinrich Haasis, presidente da Federação Alemã das Caixas Econômicas.

Isto está tanto correto quanto incorreto.

Está correto porque as transações realizadas neste setor não tem nada a ver com os bens reais. O setor lida com expectativas, e nas expectativas das expectativas, freqüentemente com dinheiro emprestado. E também está correto porque é um setor no qual se ganha quantidades obscenas de dinheiro.

Mas a declaração de Haasis está errada porque estas transações podem de fato acabar afetando a economia real. Elas podem aquecê-la, como nos anos do boom recente, ou podem desacelerá-la, como atualmente. Elas também podem arrastá-la ao abismo, como muitos ainda acreditam ser possível após a mais recente crise de crédito.

Essa crise abalou os mercados financeiros por meses. Os bancos centrais foram forçados a injetar centenas de bilhões na economia global para lhe fornecer liquidez e impedir um colapso. Os antes impopulares fundos soberanos dos Estados do Oriente Médio e da Ásia intervieram, usando seu dinheiro para escorar instituições veneráveis como o Citigroup ou o suíço UBS.

É possível que o pior já tenha passado, apesar de que ainda demorará até que os resultados se tornem tangíveis. Mas também é possível que outros mercados, como o de crédito ao consumidor, possam ser arrastados para a mesma confusão em breve.

Apesar de tudo isso, ainda há bastante capital especulativo à procura de investimentos de alta rentabilidade. Enquanto as hipotecas subprime eram a última moda até recentemente, a bola da vez são os investimentos em ouro e estanho, trigo e soja. Tudo isso significa que a próxima crise já está ganhando forma antes que a última tenha passado -uma bolha seguindo no encalço de uma bolha.

Eles todos estão de volta à mesa, os fundos hedge e grandes investidores, aqueles que colocarão suas apostas em tudo que prometa gerar um lucro. Mas eles não são os únicos. Os fundos de pensão americanos, como o fundo que administra as pensões de aposentadoria para os professores da Califórnia, também entraram na briga. E há os inúmeros pequenos investidores que colocam seu dinheiro em fundos de commodities, em fundos de índices que simulam os preços das commodities, ou em certificados, estes instrumentos modernos de investimento que até mesmo permitem que investidores comuns fiquem com uma parte da ação.

Eles todos especulam que os preços das commodities continuarão subindo, em parte porque a demanda está crescendo enquanto a oferta é limitada. O petróleo é um desses casos. Sem ele a economia mundial paralisaria e as economias emergentes da Ásia estão constantemente exigindo mais. E há os alimentos. Na China, por exemplo, mais pessoas agora podem comprar carne. Mas são necessários três quilos de ração para produzir um quilo de carne de porco. Ao mesmo tempo, muitos campos agora são dedicados ao cultivo de plantas para produção de biocombustível.

A tendência é clara, mas oferece apenas uma explicação parcial para o aumento acentuado nos preços. Os hábitos de vida não mudam tão rapidamente e, conseqüentemente, nem a demanda. A única coisa que muda tão rapidamente é a expectativa, que continua pressionando a alta dos preços.
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Como especuladores estão causando a alta do custo de vida - parte 2

Markus Dettmer, Frank Hornig, Armin Mahler, Christoph Pauly, Wolfgang Reuter, Janko Tietz

Yoshikazu Tsuno/AFP - 16.jun.2008

Commodities: o setor que mais cresce no século 21
Ninguém sabe quão caro o petróleo estaria se não houvesse especulação, mas certamente estaria mais barato. E se estivesse mais barato, nós pagaríamos menos pela gasolina, combustível para aquecimento e água quente. Os alemães, como todo mundo, também teriam mais dinheiro disponível para cobrir o custo de vida e produtos de consumo, e mais e mais bilhões não seriam excluídos do ciclo econômico alemão.

Se o petróleo estivesse mais barato haveria menos inflação, e o Banco Central Europeu (BCE) não seria forçado a manter as taxas de juros tão elevadas quanto atualmente. Ele poderia reduzir os juros, como o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, anunciou no começo do mês. Taxas de juros mais baixas estimulariam a economia e conteriam a valorização excessiva do euro, que por sua vez beneficiaria a economia e teria um impacto positivo sobre o mercado de trabalho.

Em vez disso, a recuperação está em risco, assim como muitos empregos. A inflação, além de tornar os produtos mais caros, também redistribui a riqueza porque ela prejudica mais os pobres do que os ricos.

Mas como ninguém sabe quão mais barato o petróleo estaria se houvesse menos especulação, ninguém sabe quão significativo é o impacto da especulação. Que ele existe está claro, assim como o fato de que afeta a todos -todo cidadão e toda empresa.

Mas tudo isso é relativamente inofensivo em comparação à especulação em torno dos alimentos. Em vez de afetar apenas o custo de vida, a especulação de commodities alimentares pode ser uma questão de vida ou morte. Quando os preços dos alimentos sobem, os pobres não conseguem mais comprar alimentos e são forçados a passar fome.

Por este motivo, também há um aspecto da especulação que muitos, especialmente aqueles que obterão um lucro rápido, optam por ignorar. Ao fazê-lo, eles também ignoram os resultados de suas ações.

A globalização, uma história de sucesso para muitos até agora, estagnou. Após ajudar inicialmente centenas de milhões de pessoas a escaparem da pobreza, ela agora está exibindo seu lado feio. À medida que os lucros crescem em um lado do mundo, a fome está novamente em ascensão do outro.


É uma história completamente diferente nas telas de computador dos analistas de Wall Street, onde commodities são o setor que mais cresce no século 21. Vastas somas de dinheiro estão sendo investidas nos mercados de commodities alimentares e de energia. Estes mercados, que até agora eram relativamente equilibrados e claros, atuando segundo os mesmos princípios por décadas, estão repentinamente sendo tomados por investidores financeiros.

No final de 2003, eles investiram apenas US$ 13 bilhões no setor de commodities alimentares. Em março de 2008, este número saltou para US$ 260 bilhões, um aumento de 1.900%.

No ano passado, novos investimentos nos mercados de commodities somaram cerca de US$ 100 milhões por dia. No início deste ano, o que era um fluxo constante se transformou em uma torrente, com mais de US$ 1 bilhão inundando o mercado a cada dia. Fundos hedge, bancos, fundos de pensão, fundos de investimento -em outras palavras, grupos que representam milhões de pequenos investidores- estão envolvidos. A princípio eles investiram seu dinheiro no mercado pontocom, depois em imóveis, e agora nos mercados de agricultura e energia que são a nova oportunidade de investimento.

Do ponto de vista da análise de investimento fundamental, há bons motivos para continuar apostando em maiores aumentos nos preços das commodities. Os recursos estão ficando mais escassos, enquanto a demanda global por energia, recursos minerais como cobre e carvão, e produtos agrícolas como trigo e milho continuam aumentando. Os traders nas bolsas de commodities o chamam de "superciclo" -uma tendência que prosseguirá por um longo tempo.

O problema é que as commodities não se comportam como ações ou hipotecas, os últimos dois queridinhos da comunidade de investimento. Freqüentemente os muitos administradores de fundos não podem (ou preferem não) entender as regras específicas de seu brinquedo mais recente além do nível mais superficial. Eles negociam com base em pequenas quantidades de informação que não significam nada até estarem em posse de uma delas.

Às vezes basta uma chuva pesada em Iowa para provocar uma corrida no mercado de milho. Uma safra ruim poderia reduzir a oferta. Oferta menor eleva os preços -e propicia retornos maiores para os traders de commodities.

No caso do petróleo, um dia de neblina no porto do Houston é suficiente para provocar pânico no mercado, porque significa que menos petroleiros poderão descarregar suas cargas até a neblina passar. Quando um oleoduto rompe no Canadá, "o preço sobe imediatamente US$ 4", diz Fadel Gheit, um analista de petróleo da Oppenheimer, em Nova York, com 20 anos de experiência no setor. Gheit, também um engenheiro, sabe como os oleodutos são reparados. "Não é um cirurgia cardíaca. É um trabalho de encanador, coisa fácil, concluído em três dias", ele diz. "Os traders usam toda desculpa disponível para aumentar os preços."

Quando era jovem, Gheit ainda analisava os preços do petróleo a US$ 4 o barril. O relacionamento ritualizado entre volume de produção e consumo, demanda que vem crescendo há anos na China, instabilidade no Oriente Médio ou na Nigéria, ameaça de tempo frio -nada disso é suficiente para explicar a atual explosão dos preços, diz Gheit. Ele está convencido de que os especuladores são totalmente responsáveis. "É pura histeria", ele diz.

Outros analistas concordam. "O mercado está reagindo ao fato de podermos não ter petróleo suficiente no mercado daqui 13 anos -como é que é?", disse Edward Morse, economista chefe para energia do banco de investimento Lehman Brothers. "Você nunca reconhece que é uma bolha até a bolha estourar", ele diz.

Há abundância de sinais de comportamento incomum por todos os mercados de commodities. Veja o algodão, por exemplo. No final de fevereiro, o preço de contratos futuros de algodão saltou 50% em duas semanas. Mas os produtores de algodão ainda nem conseguiram vender metade de sua safra do ano anterior. Desde 1966 os depósitos nos Estados Unidos não ficavam tão cheios. Na verdade, todos os sinais apontam para uma queda de preço.

Em uma declaração ao Congresso americano, o Associação Americana dos Transportadores de Algodão atribui a este desdobramento "irracional" a "alta dos preços causada pelos especuladores". Segundo o grupo setorial, os processadores de algodão nunca pagariam os preços fantasiosos que são cotados nas bolsas de commodities.

Dois mundos se desenvolveram. Um é o mundo dos traders dos fundos hedge e empresas de investimento, e o outro é dos produtores rurais, mercadores de grãos e operadores de minas. Eles podem lidar com as mesmas commodities -barris de petróleo ou fardos de algodão, por exemplo- mas para alguns estes são apenas conceitos abstratos, enquanto outros os vêem como produtos reais.

Os problemas surgem quando estes dois mundos se cruzam, o mundo da fantasia dos especuladores e as economias reais dos processadores de algodão e torrefadores de café. Isso leva a distorções, como as que atualmente afetam o mercado de algodão.

A especulação não é necessariamente ruim. Quando um mercado vê bilhões em novos investimentos, isto pode estimular o comércio, o que beneficia a todos, melhora a eficiência e provoca uma onda de modernização.

Mas há algum tempo, as apostas em massa realizadas pelos novos investidores financeiros permitiram que as bolsas de commodities, especialmente as de Chicago e Nova York, funcionassem como perfeitos cassinos. Tradicionalmente, as bolsas permitem que produtores rurais e atacadistas de grãos vendam antecipadamente as colheitas usando os chamados contratos futuros. Nestes, o volume, preço e data de entrega de uma determinada commodity são estipulados antecipadamente, mesmo quando o grão ainda está balançando ao vento nos campos dos produtores rurais.

Para os produtores rurais e seus clientes, os contratos futuros são uma forma de se protegerem contra condições climáticas adversas. No caso de metais e energia, os contratos futuros ajudam as partes a compensarem flutuações excessivas de preço e controlar a entrega de seu produto.

É precisamente este mecanismo que os especuladores usam em seu benefício. Eles compram contratos para a entrega de commodities como trigo e petróleo quando os preços estão baixos, apostando assim os bilhões que investiram na alta dos preços. Traders tradicionais de commodities têm pouca chance de resistir com sucesso a tamanha especulação. Os especuladores, devido ao seu volume, agora controlam os mercados. Em Chicago, lar da maior bolsa de commodities do mundo, o volume de contratos futuros de grãos sendo negociados já é 30 vezes maior que a produção anual de grãos nos Estados Unidos. Esta tendência dificilmente será reduzida tão cedo. Neste ano, corretores em Chicago já deram entrada a 20% mais contratos do que no mesmo período do ano passado.

Os preços do trigo, arroz ou carne de porco sempre foram negociados entre produtores rurais, distribuidores e seus clientes. A mesma coisa costumava ser verdadeira nas bolsas de commodities. No final, as transações futuras levavam a uma entrega de fato de um produto. No jargão do setor, isto é chamado de "real trading".

Mas esses dias são coisa do passado. O real trading, diz Hubert Gabrisch, do Instituto para Pesquisa Econômica de Halle, cidade no leste da Alemanha, "se tornou a exceção nas bolsas". No caso do trigo, por exemplo, apenas 3% do volume negociado de fato troca de mãos. Os preços agora são determinados pelos especuladores, malabaristas financeiros sem nenhum interesse em ter algum contato físico com a entrega das vastas quantidades de grãos que possuem.

Um bushel de trigo se tornou um número abstrato nos escritórios de fundos hedge de Nova York, um número perfeitamente adequado para fins de aposta. Na maioria dos casos, este número tem pouco a ver com o valor real do alimento básico por trás.

A especulação é mencionada pela primeira vez no Velho Testamento. O soberano do Egito, que sonhou que sete safras abundantes seriam seguidas por sete safras ruins, encorajou a prática. Para evitar este desastre, ele criou o que poderia ser visto como o primeiro fundo governamental da história do mundo, no qual estocou grãos em grande escala, portanto provocando alta dos preços.

Um arquétipo clássico de todos os pânicos futuros é mania das tulipas holandesas do século 17. Em 1636, no auge da bolha, os bulbos mais cobiçados, como as espécies Viceroy e Van der Eyck, tinham preços que equivaliam aos de uma casa inteira. Todas as classes sociais sucumbiram à histeria. Pinturas contemporâneas retratam açougueiros, guardas, agentes mercantes, estudantes e limpadores de chaminés negociando bulbos em tavernas.

Mas então a fé dos holandeses em um futuro dourado permanente para a tulipa ruiu. No leilão de tulipas na cidade de Haarlem, em 4 de fevereiro de 1637, nenhum dedo foi levantado quando o primeiro bulbo foi leiloado. O leiloeiro baixou o preço, mas ainda assim ninguém se moveu. Isto levou a uma ampla venda de bulbos, que fez com que os preços despencassem.

O país mergulhou em uma recessão profunda. Como freqüentemente ocorre após uma especulação exagerada, o governo teve que intervir e proibiu o uso de contratos futuros, que já eram comuns na época. Pregadores castigaram os especuladores em seus púlpitos, chamando o caso de "punição de Deus pela ganância blasfema e estupidez das massas".

Especulação fracassada, seguida por dificuldades e sofrimento, estão presentes desde que os seres humanos começaram a praticar o comércio. E sempre foi a combinação fatal de liquidez excessiva e instinto de rebanho dos especuladores que causa a alta dos mercados e depois sua explosão e colapso.

Parece que toda geração tem que lidar com sua própria especulação, deve experimentar pessoalmente quanto o otimismo ilimitado pode se transformar em desespero e quantas oportunidades certas de investimento podem se transformar em ações sem valor praticamente da noite para o dia. As bolhas especulativas do passado incluíram a falência da Companhia dos Mares do Sul em 1720, a bolha ferroviária britânica em 1846, a alta das ações que antecedeu a crise econômica mundial de 1929 e a bolha pontocom do final dos anos 90. A simples estupidez de uma bolha nunca é aparente até após seu estouro.

Os especuladores mais ousados ou são ridicularizados ou admirados, dependendo de quão bem se saem. Em 1992, a decisão bem-sucedida de George Soros de apostar bilhões contra a libra britânica lançou sua reputação de ser um apostador de sangue gelado. Outros foram parar na prisão, como Nick Leeson, um jovem corretor de ações britânico que apostou mais de 800 milhões de libras em meados dos anos 90. Quando não conseguiu mais esconder suas perdas, ele deixou um breve bilhete em sua mesa ("Sinto muito") e fugiu. Suas ações levaram ao colapso de seu empregador, o Barings, o banco de investimento mais antigo da Inglaterra.
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Como especuladores estão causando a alta do custo de vida - parte 3

Markus Dettmer, Frank Hornig, Armin Mahler, Christoph Pauly, Wolfgang Reuter, Janko Tietz

AFP - 20.jun.2008

Os mercados de capital americanos são dirigidos por pessoas de 29 anos
Os especuladores -e as bolhas especulativas- sempre existiram, como mostra um olhar pela história. O que é novo é o simples volume da especulação, chegando a bilhões, nos últimos anos.

Isto tem a ver com os mercados financeiros modernos e seus instrumentos, conhecidos como derivativos, que o grande investidor americano, Warren Buffet, acertadamente descreveu como armas de destruição em massa. Mas estas armas são apenas eficazes porque os bancos centrais criaram o ambiente necessário. Nunca antes na história o mundo foi tomado por tamanha enxurrada de dinheiro.

Desde o início dos anos 80, as taxas de juros nas principais economias do mundo tendem para baixo. O volume de dinheiro cresceu de acordo, inicialmente em cerca de 4% ao ano e agora em mais de 10%. Quando mais capital produz menos renda de juros, os investidores buscam automaticamente investimentos de maior rendimento.

É relativamente fácil seguir o rastro do dinheiro. Sempre que uma grande quantidade de capital toma um mercado, ele deixa para traz um grande leito de rio.

Primeiro houve a corrida aos Tigres Asiáticos em meados dos anos 90. Bilhões de dólares em investimento ocidental ajudaram a alimentar o boom econômico na Tailândia, Coréia do Sul, Malásia, Filipinas e Indonésia. Mas então, no segundo semestre de 1997, ocorreu o crash.

Uma festa mal tinha acabado quando começou outra. Em Moscou, os especuladores ocidentais apostaram nos títulos de curto prazo do governo russo até que a Rússia se tornou insolvente em 1998. Isto levou ao colapso espetacular da Long-Term Capital Management, um fundo hedge gigante, que quase arrastou o sistema financeiro internacional com ele.

Em seu livro "The Trillion Dollar Meltdown: Easy Money, High Rollers and the Great Credit Crash", o autor americano Charles Morris escreveu: "Independente do que saia errado, o Fed salvará você criando dinheiro barato suficiente para comprar sua saída de seus problemas". Ele estava descrevendo as políticas do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, e seu presidente por muitos anos, Alan Greenspan.

Após o estouro da bolha pontocom e o 11 de Setembro, o Fed reduziu sua taxa referencial em cinco pontos percentuais, assegurando assim que o mercado ficasse literalmente inundado de dinheiro. Na época Greenspan, que era reverenciado e praticamente tratado como um feiticeiro, manteve as taxas em apenas 1% por 12 meses. Seu sucessor Ben Bernanke, adotou exatamente a mesma abordagem quando a crise americana das hipotecas subprime ocorreu no ano passado. Ele já reduziu as taxas de juros sete vezes desde setembro passado.


"A liquidez mundial disponível é um fator que promove a especulação e inovação", diz um especialista do BCE. Além da política agressiva de baixa taxa de juros americana, ele cita uma considerável expansão da oferta de dinheiro na Ásia. Várias equipes no BCE estão buscando formas para melhor entender como os mercados financeiros afetam as mudanças na oferta de dinheiro, portanto influenciando indiretamente a inflação.

Por medo de que os mercados possam sofrer um colapso, os banqueiros centrais americanos tornaram o dinheiro cada vez mais barato, mas ao fazê-lo estão combatendo o incêndio com gasolina em vez de água. À medida que cresce o capital, ele busca cada vez mais novas fontes de retorno.

Os fundos hedge são os mais agressivos, reunindo vastas somas de dinheiro e as investindo de forma extremamente especulativa. Se tudo sair bem, eles podem obter retornos extremamente altos para seus investidores e, para seus administradores, salários que pareceriam inconcebíveis até não muito tempo atrás.

John Paulson é um desses casos. Um ex-banqueiro de investimento, ele administrou seu próprio grupo de fundos hedge, em grande parte sem ser notado, desde 1994. Em 2006, ele ganhava uma renda anual estimada de US$ 100 milhões a US$ 150 milhões. Apesar de certamente uma vasta soma segundo padrões comuns, a renda de Paulson era relativamente modesta dentro do setor, e insuficiente para merecer qualquer atenção da mídia.

Isto mudou em 2006, quando Paulson, 52 anos, decidiu colocar suas apostas no colapso do mercado imobiliário americano, especialmente no setor subprime (de alto risco), enquanto a maioria dos especuladores ainda apostava em um crescimento desenfreado. No ano passado, um dos fundos de Paulson, o Credit Opportunities II, saltou de valor de US$ 130 milhões para US$ 3,2 bilhões, um aumento de 2.362%. O próprio Paulson chegou ao topo do ranking da revista "Trader Monthly" dos 100 maiores ganhadores do setor -com uma renda anual estimada de mais de US$ 3 bilhões.

O homem em segundo lugar nessa lista, Phil Falcone, reconheceu o potencial no minério de ferro australiano. Diretor administrativo sênior da Harbinger Capital Partners, Falcone investiu pesadamente em um dos produtores-chave do setor, a Fortescue Metals. O investimento deu resultado, lhe propiciando um retorno de 114% e contribuindo para os ganhos anuais da Harbinger de cerca de US$ 1,5 bilhão.

Os novos soberanos dos mercados financeiros parecem diferentes de seus antecessores, os banqueiros de Wall Street consistentemente bem vestidos. John Burbank, 44 anos, com sua barba, coletes de lã e utilitário esporte velho e amassado, poderia facilmente se passar por um guarda florestal. Sua pequena empresa tem sede em um prédio modesto de San Francisco, o mais distante da Wall Street de Nova York possível, mas mesmo assim Burbank é o mais recente garoto-maravilha de Wall Street. No ano passado, seu fundo hedge, o Passport Global Strategy, obteve um retorno recorde de 219%.

"Você só consegue obter estes tipos de lucros se suas opiniões forem muito diferentes das opiniões gerais", diz Burbank. Um de seus investimentos foi em minas de carvão africanas.

Dados recentes gerados pela firma de análise do mercado americano, Barclay Hedge, aponta para um afluxo maciço de dinheiro de fundos hedge para o mercado de commodities nos últimos anos. Desde 2003, estes investimentos aumentaram 372%, até o número mais recente de cerca de US$ 190 bilhões.

Às vezes, é claro, há mais em jogo do que investimentos em carvão e minério de ferro. E em alguns casos os especuladores, com sua falta de transparência, apostam em uma economia inteira. O drama que atualmente se desenrola na Islândia é um exemplo.

Nos últimos anos, os três maiores bancos do pequeno país especularam contra sua própria moeda porque tomaram empréstimos pesados no exterior. Alguns poucos fundos hedge perceberam a ação dos bancos e passaram a especular que a situação sairia de controle.

"Operadores inescrupulosos" do exterior estavam tentando provocar o colapso do sistema financeiro da Islândia, disse David Oddsson, o presidente do banco central do país. Ele aumentou as taxas de juros para uma alta recorde de 15,5% em um esforço para salvar a moeda islandesa, a coroa. Desde o início de 2008, a coroa perdeu 20% de seu valor frente ao euro, em parte em conseqüência das ações dos bancos islandeses.

Mas os investidores têm outra carta em suas mangas. Agora eles estão especulando que os bancos islandeses irão a pique. Mas os islandeses estão contra-atacando. Para obter novo dinheiro, uma das instituições, o Kaupthing Bank, está atraindo investidores alemães com uma taxa de juros recorde de 5,65% nas contas do mercado de moeda.

Enquanto isso, os bancos centrais estão se preparando para o pior. Os países escandinavos prometeram fornecer à Islândia uma ajuda emergencial de 4,3 bilhões de euros em dinheiro caso seu banco central necessite socorrer os bancos. O BCE também está ciente do problema. Parece ser hora dos fundos hedge admitirem a derrota, pelo menos por ora, em sua batalha pelo pequeno país.

Não é incomum fundos hedge especularem e perderem, e muitos já fracassaram como resultado. Apesar de ainda não ter ocorrido um grande colapso, a possibilidade não pode ser descartada. Ela acontecerá se vários destes fundos apostarem no mesmo cavalo, perderem e então arrastarem seus financiadores com eles. Isto porque os fundos hedge costumam operar com dinheiro emprestado, o que os torna altamente promissores e arriscados ao mesmo tempo.

É claro, a especulação não é um negócio reservado exclusivamente a estes grandes malabaristas financeiros. Milhões de pequenos investidores participam do jogo, conscientemente ou não. A especulação em commodities assegura suas pensões de aposentadoria (a menos que algo saia errado), e faz parte da estratégia de diversificação das empresas de seguro de vida e planos de investimento. Pequenos investidores também podem investir diretamente em contratos futuros de petróleo e grãos.

"Muito dinheiro pode ser ganho neste negócio se você utilizar apropriadamente a crescente demanda mundial", disse Charles Valdes com entusiasmo há menos de dois anos. Ele está encarregado dos investimentos do maior fundo de pensão americano, o Sistema de Aposentadoria dos Funcionários Públicos da Califórnia (Calpers).

Valdes já investiu mais de US$ 1,1 bilhão, com US$ 450 milhões nos mercados de commodities, em prol das pensões de 2,5 milhões de funcionários públicos da Califórnia. O dinheiro visa "diversificar nosso portfólio e reduzir nosso risco", diz Valdes.

Fundos de investimento poderosos também estão entrando na onda. Nos últimos 12 meses, eles introduziram 52 fundos de índices especializados em commodities apenas nos Estados Unidos. Estes instrumentos espelham os índices industriais divulgados pela Standard & Poor's e Goldman Sachs, na expectativa de que os preços continuem subindo.

O próspero setor de certificados da Alemanha opera de forma semelhante. Com mais de 300 mil papéis negociados diariamente nas bolsas mundiais, qualquer investidor comum pode apostar nas mudanças no preço da gasolina sem chumbo, no zinco ou na soja. O preço desses debêntures emitidos pelos bancos também seguem gráficos febris da cotações internacionais, como os da Bolsa de Chicago e da Bolsa de Metais de Londres. Investidores privados alemães já compraram ações no valor de mais de 130 bilhões de euros. Os bancos estão salvaguardando seus investimentos com a compra de contratos futuros correspondentes, aumentando assim os preços.

Como os mercados de ações não são mais um investimento tão atraente quanto já foram, muitos bancos também estão apostando em commodities. Escrúpulos éticos geralmente não são mencionados em sua literatura promocional, assim como não apontam que os investidores privados pagam por seus investimentos em outros lugares, como no supermercado ou ao encher o tanque no posto de gasolina, por exemplo. E dificilmente um banqueiro apontará que preços lucrativos no fundo se traduzem em aumento do preço dos alimentos em lugares como Burkina Fasso.

Participe da alta dos preços do petróleo mas com pouco risco, o banco americano JP Morgan diz aos seus clientes. O Merrill Lynch até mesmo oferece um produto de investimento chamado "Cesta de Fertilizante dos Mercados Emergentes".

Os especuladores apuraram seus ouvidos há poucas semanas, quando importantes especialistas em agricultura alertaram as autoridades da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) que podiam esperar ver mais e mais pessoas passando fome no futuro. O arroz, antes um produto de nicho nas bolsas de commodities que atraía pouca atenção, agora ganhou proeminência. Não demorou para que números começassem a circular e os especuladores percebessem que o arroz é um alimento básico para mais da metade da humanidade, especialmente na Ásia e Oeste da África.

O banco holandês ABN Amro foi o que reagiu mais rapidamente, emitindo um certificado que "possibilita, pela primeira vez, participação no principal produto alimentício na Ásia". Agora que a Índia impôs uma proibição à exportação de arroz, "as reservas mundiais cairão a níveis mínimos", escreve o banco, deixando implícito que o arroz é uma ótima oportunidade de investimento.

O certificado faz tanto sucesso entre os pequenos investidores que outros bancos agora também estão considerando emitir certificados de arroz. Mas o preço do arroz caiu significativamente de novo. Ironicamente, o DWS, o fundo subsidiário do Deutsche Bank alemão, anunciou um novo fundo agrícola global nos sacos que as padarias alemãs usam para embrulhar pão e outros produtos.

A questão das commodities surge no momento certo para o setor de certificados, fornecendo uma nova ferramenta eficaz para atrair clientes. Até 29 de junho, os investidores na Alemanha não pagarão impostos sobre lucros oriundos de investimentos especulativos. Aqueles que investirem após a data, pagarão um imposto de 25% sobre os ganhos de capital, que, antes das novas regras entrarem em vigor, são isentos de imposto se mantidos por pelo menos um ano.

O sentimento é acalorado e há abundância de oportunidades, trazendo lembranças dos melhores momentos da Nova Economia (pouco antes do início dos piores momentos). Alguns analistas de bancos de investimento adquiriram status cult novamente -como Henry Blodget e Mary Meeker, analistas do Merrill Lynch e Morgan Stanley, respectivamente, que alimentaram o boom pontocom por anos com seus prognósticos otimistas.

Arjun Murti, da Goldman Sachs, exerce um papel semelhante atualmente. O analista de petróleo é famoso em seu setor. Suas previsões ousadas quase sempre estão corretas, pelo menos até agora -a ponto de seus relatórios mais recentes sempre provocarem pequenas ondas de choque nos mercados. No segundo trimestre de 2005, ele previu que o preço do petróleo -a cerca de US$ 50 na época- se aproximaria de US$ 105 em 2009.

Em 6 de maio, Murti disse que um preço de até US$ 200 o barril era "altamente provável" nos próximos 24 meses. Os preços prontamente dispararam. "O relatório da Goldman dá aos administradores de fundos uma desculpa para pressionar ainda mais os preços para cima", diz Michael Fitzpatrick, da MF Global, a principal corretora do mundo para transações de futuros.

Programas financeiros na televisão também entraram em marcha acelerada. Canais de negócios, como o "CNBC" e "Bloomberg" nos Estados Unidos, estão fazendo o melhor que podem para animar os investidores. Enquanto relatórios anteriores se concentravam no número de acessos aos sites da Amazon e Netscape, cotações agora rolam pela tela, mostrando os atuais preços do ouro, prata, gás e petróleo. Apresentadores de programas, investidores e analistas estão constantemente envolvidos em discussões acaloradas sobre a "crise do petróleo na América" sobre a "bolha imobiliária". É claro, parte de suas discussões envolve as melhores formas de transformar estas calamidades em lucro.

Jim Cramer é a nova personalidade da mídia dos novos miniespeculadores. O ex-administrador de fundo hedge se transformou em uma espécie de entertainer para a televisão financeira americana. Em seu programa caótico, "Mad Money", ele ocasionalmente arremessa cadeiras pelo estúdio vermelho. Ele está constantemente pressionando vários botões vermelhos para disparar efeitos sonoros -um coro de aleluia, disparo de metralhadoras ou som de búfalos, ursos ou porcos- correspondentes às suas dicas gritadas de investimento. Turbinas de vento estão em falta no mercado: rufar de tambores! O setor de contêineres de carga está prestes a experimentar uma forte recuperação: aplausos! O boom do petróleo pode sofrer um ocasional minicrash: disparos de metralhadora!

Dificilmente haveria melhor cenário para um capitalismo global desenfreado de grandes e pequenos especuladores. Não é de se estranhar que até mesmo um insider ocasional esteja começando a se sentir constrangido, enquanto mais e mais pessoas estão se perguntando como os mercados fora de controle podem ser novamente domados.

Uma falta de regulação permitiu ao setor financeiro "se tornar lucrativo demais e grande demais", diz George Soros. O lendário guru do investimento está alertando há anos para os riscos do mercado financeiro global. Em uma audiência no Congresso americano na semana passada, Soros até mesmo falou de uma "superbolha" que ele acredita estar se formando nos últimos 25 anos.

As altas recordes nos preços do petróleo também são resultado de uma bolha, segundo Soros. "Especuladores e fundos de índice que seguem a tendência estão apenas aumentando a pressão sobre os preços", ele diz. Por este motivo, Soros propõe tornar mais difícil para fundos de pensão e fundos de índice negociarem contratos futuros nos mercados de commodities. Um método seria a adoção de uma obrigatoriedade de um maior investimento mínimo para o capital especulativo.

Kenneth Griffin também é um dos grandes agentes no mercado. Seu fundo hedge, o Citadel Investment Group, vale US$ 20 bilhões e é um dos mais bem-sucedidos no setor. Todavia, eles às vezes têm uma sensação incômoda quando pensa no setor. "Caminhe por qualquer um dos andares de trading -eles estão cheios de jovens de 29 anos", Griffin se queixou recentemente ao "New York Times". "Os mercados de capital da América são controlados por um bando de jovens recém-saídos do curso de administração e negócios que realmente não viram muito. Há uma verdadeira falta de sabedoria." Segundo Griffin, os executivos de bancos atualmente entendem apenas "parte de seus negócios". Ele acredita que o setor necessita de melhor regulação.

"Nós temos que criar um sistema financeiro no qual não haja incentivos perversos, os riscos sejam devidamente reconhecidos e administrados e onde haja menos empréstimos", diz Mario Draghi, o chefe do Banca d'Italia e presidente do Fórum de Estabilidade Financeira, um grupo fundado pelos sete maiores países industrializados há 10 anos, após a crise financeira asiática. Em abril, Draghi apresentou um documento de 70 páginas detalhando as medidas propostas para fortalecer a estabilidade dos mercados.

Por exemplo, escreve Draghi, devia ser exigido dos bancos um maior uso de seu próprio capital para investimento em produtos financeiros complexos. Os fundos hedge e outros grandes especuladores, ele acrescenta, devem ser forçados a finalmente revelar suas atividades e riscos.

"As propostas são eficientes, mas elas também precisam ser implantadas em algum momento", diz Hans Tietmeyer, o ex-presidente do banco central da Alemanha, o Bundesbank, e co-fundador do fórum. Segundo Tietmeyer, os americanos e britânicos estão constantemente exigindo exceções para suas empresas no instante em que crises agudas terminam.

Além de regulação mais rígida, os economistas também estão pedindo por uma política monetária mais rígida. Isto significa taxas de juros mais altas, menos inflação e, no final, um dólar mais forte. "Os investidores de todo mundo vêem as commodities como uma salvaguarda contra a inflação", diz Ben Steil, do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos. Isto significa que enquanto o dólar permanecer fraco, os preços do petróleo não cairão. Para começar, o petróleo é a nova moeda de reserva do mundo.

Enquanto isso, nos escritórios dos fundos hedge, fundos de pensão e firmas de investimento, uma busca febril pelo próximo grande investimento já está em andamento. Investimentos conservadores -coisas concretas que não podem virar fumaça tão facilmente como um contrato futuro nas bolsas de Chicago e Nova York -estão repentinamente em voga de novo.

De acordo com a nova tendência, os fundos hedge e bancos de investimento começaram a comprar fazendas em todo o mundo. O Morgan Stanley, por exemplo, já é dono de vários milhares de hectares de terra agrícola na Ucrânia. Um fundo agrícola operado pelo Blackrock, um grupo de investimento de Nova York, adquiriu mais de 1.100 hectares em Norfolk County, Reino Unido. Outros estão revirando o mundo, da Rússia até a América do Sul, em busca de oportunidades de investimento. Na Argentina, os preços dos campos mais produtivos subiram 80% nos últimos anos.

O fundo hedge britânico Emergent Asset Management está atualmente reunindo 1 bilhão de euros para comprar terras agrícolas africanas ao sul do deserto do Saara.

"Os administradores de fundos hedge podem não ser bons agricultores", diz Paul Christie, chefe de marketing do Emergent, "mas com bons parceiros podem ser bons administradores de fazenda".
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Nota do blog: realmente, o mundo anda tão complicado...Ô, ô , seu moço, do disco voador, me leve com você, pra onde você for....

ENTREVISTA SAMUEL - PROFETA?